Viver em pequenas cidades tem suas muitas vantagens, mas, em se tratando de saúde, é um risco danado. Há quem pense que não adianta ter sossego, ar puro, segurança, custo de vida menor, se “na hora que o bicho pega” não há onde procurar recurso. Hoje as distâncias estão mais curtas, a modernidade chegou em muitos locais. Mas não muito tempo atrás, quem precisava de um simples exame laboratorial tinha que contar com a boa vontade de outras pessoas e, por que não, com um pouco de sorte.
Os médicos eram poucos e corajosos. Anestesia? Artigo de luxo. Muitas vezes, os poucos veículos que existiam viravam ambulância, transportando os pacientes nas intermináveis e desconfortáveis estradas de terra.
Certa vez, passou mal um fazendeiro importante de Passa Tempo. Tinha dores horríveis no abdômen, ardência e dificuldade enorme para urinar. Mandou logo seus empregados irem buscar ajuda.
Dr. Augusto, o único médico do lugar, pegou carona na charrete da linha de leite e foi acudir o coitado. Chegando lá, diante da falta de material disponível para a coleta da urina e da necessidade iminente de um exame mais detalhado, teve uma idéia: colocar uma garrafa vazia de cachaça em água fervente (para esterilizar) e mandar o paciente urinar ali mesmo. Depois encaminharia ao laboratório mais próximo, em Carmópolis de Minas, a vinte e poucos quilômetros dali.
Naquele dia, não haveria mais locomoção motorizada para a cidade vizinha e o único jeito era mandar um cavaleiro levar. Na falta de um melhor, chamaram o Tonho, que nas horas vagas (e elas eram muitas) não desgrudava da birita. Apesar de seu estado, não poderia perder a chance de ganhar um trocado do fazendeiro pra comprar mais cachaça.
Munido do embornal, com o material do exame devidamente preparado pelo Dr. Augusto, montou em seu inseparável companheiro naquela tarde insuportavelmente quente de verão e partiram para a tortuosa viagem.
Cavalga daqui, cavalga dali, e a cidade não chegava nunca. Seu amigo quadrúpede, desacostumado com a distância, logo começou a tropeçar.
_ Anda logo, cavalo imprestável! – resmungou já prevendo a dificuldade de chegar ao destino no tempo combinado.
Lá pelo quilômetro doze, na metade do caminho, o já cansado cavaleiro se deparou com uma porteira e, ao atravessá-la, a alça do embornal ficou presa num prego e a garrafa foi ao chão, derramando a urina do fazendeiro, sua valiosa encomenda.
Tonho não sabia o que fazer. Se fosse voltar para pegar nova urina do doente, andaria os doze quilômetros já percorridos para voltar, mais vinte e quatro para chegar ao laboratório e ainda outros vinte e quatro para levar o resultado do exame. Seriam sessenta quilômetros encima de um cavalo trotão. Haja lombo pra aguentar!
Fazendo as contas, ficou fácil para ele. Arrumaria uma forma de não ter que voltar. Foi aí que lhe ocorreu a ideia que o pouparia da tortura:
_ Vô resolvê o problema do meu jeito. Não era mijo que tinha na garrafa? Agora vai ter denovo.
Pegou então sua inseparável garrafinha de pinga, deu um trago e jogou o resto fora. Virou-se para o mato, arrancou seu instrumento para fora e encheu o recipiente.
Percorrida a outra metade, procurou na cidade o lugar onde ficava o hospital. Chegando lá, entregou a garrafinha sob o olhar espantado da atendente.
_ É pra fazer o exame do compadre Mauro. O doutô Augusto que mandou assim. – disse o matuto.
Realizado o exame, ficou constatado um número anormal de bactérias presente na amostra. E foi assim que o cavaleiro Tonho ficou sabendo que também tinha infecção de urina.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Baile de Debutantes em Passa Tempo
Aconteceu no dia 14 de novembro de 2009 o II Baile de Debutantes da APAE de Passa Tempo com a presenca dos militares da 4a Cia de Policia do Exercito como cadetes de honra.
debutaram 12 belas jovens da sociedade de Passa Tempo, desfilando glamour e charme.
o baile foi animado pela Banda C&A Plus que estendeu ate as 5 horas da manha.
Segundo o vereador Ricardo Lara, colaborador da APAE e mentor juntamente com a professora Marcia Silva, este baile ja esta consolidado, sendo como certo a sua inclusao na agenda de 2010.




debutaram 12 belas jovens da sociedade de Passa Tempo, desfilando glamour e charme.
o baile foi animado pela Banda C&A Plus que estendeu ate as 5 horas da manha.
Segundo o vereador Ricardo Lara, colaborador da APAE e mentor juntamente com a professora Marcia Silva, este baile ja esta consolidado, sendo como certo a sua inclusao na agenda de 2010.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Tião, o trapezista voador - por Caio Augusto Souza Lara
No tempo em que as opções de divertimento eram poucas e a televisão ainda era um artigo de luxo, o circo alegrava os monótonos fins-de-semana das pequenas cidades. Sua chegada era aguardada e causava um rebuliço danado, principalmente na criançada. Com suas melhores roupas, as pessoas saíam da missa e iam direto pra lá, assistir ao espetáculo.
Nesta época, Tião, que ainda era um rapazote, se encantou com o mundo circense. Ficou maravilhado com as luzes, as cores e os movimentos dos trapezistas. Sem perceber, foi enfeitiçado pelo glamour dos artistas que se apresentavam a poucos metros de distância.
Ocorreu-lhe, então, a idéia de abandonar a vida de aprendiz de carpinteiro e se tornar um membro da trupe. Apesar da insistência de sua mãe e de seu pai em desistir da idéia maluca e dos conselhos dos amigos, tomou a decisão de partir junto com o circo. Do conforto de casa, abriu mão para tentar a fama.
Desarmada a tenda, seguiram em viagem pelas Américas. Como não tinha habilidade e não era persistente nos treinamentos, o dono do circo logo o tirou do trapézio. Tentou ser palhaço, mas faltava-lhe naturalidade e suas trapalhadas eram as que menos causavam gargalhadas na platéia. Foi deslocado para a pouquíssima charmosa equipe de montagem da arquibancada e só não foi demitido do circo porque arranjou um romance com a contorcionista, cujo número era o mais aplaudido do espetáculo.
Pensou em voltar pra casa, mas a vergonha de assumir o fracasso não o deixava. Sem oportunidades, em pouco tempo não lhe restou outra opção senão a de tentar a sorte na periferia de uma grande cidade. Começou, então, a passar por dificuldades, mas o sonho de se tornar trapezista ainda permanecia vivo.
Algum tempo depois, próximo a sua casa, no mesmo bairro, se instalou um circo mambembe, que ia de mal a pior. A situação estava tão ruim que o circo teve que vender o leão para o zoológico para pagar os salários atrasados dos poucos artistas que ainda restavam. O coelho do mágico já tinha virado ensopado. Tião enxergou aí a oportunidade que precisava para dar a volta por cima.
_O senhor é que é o dono? – perguntou Tião ao homem na janela do trailer.
_ Diga logo o que queres.
_ Ouvi dizer que o circo está à procura de uma atração principal pra substituir o leão.
_ É verdade. Preciso de um grande número ou o circo vai fechar.
_ Eu tenho a solução! Sou o melhor trapezista da minha terra!– falou o ousado Tião, mesmo sabendo que do lugar onde veio ele era o único trapezista.
_ E de onde você é, homem?
_ Sou de Passa Tempo. No caminho de São Paulo. Sabe onde fica?
_ Já ouvi falar. Não é lá que aparecem uns discos voadores?
_ Lá mesmo. Eles passeiam sempre por lá. Já o circo, há anos não vai nenhum...
Tião, após muita conversa, pegou a confiança do dono do circo e o convenceu a levar seu picadeiro para lá com a promessa de bons lucros. Estava armado o plano: voltaria a sua terra e brilharia como o grande astro do circo. Mostraria para todos que se tornou um artista de primeira grandeza.
● ● ●
_ Alô molecada! Alô papai! Alô mamãe! O circo chegou! Não percam hoje, às dezenove horas, no Estádio do Fita Azul Esporte Clube, a volta triunfal do artista da terra: Sebástian, o Trapezista Voador! – berrava o alto-falante da surrada Veraneio amarela do circo.
Já se passavam três anos da saída de Tião e a notícia de sua volta se alastrou como fofoca. Todos os ingressos foram vendidos antecipadamente. O dono do circo já fazia planos para o dinheiro. Até o padre queria ir, e, para isso, adiou a missa para mais tarde.
_Senhoras e Senhores! Sejam bem-vindos! – Anunciava o dono do circo, que também acumulava as funções de apresentador, palhaço e malabarista.
A platéia estava afoita. Todos queriam ver o filho do marceneiro em ação. A animação era geral no pequeno e lotado circo. Nos fundos, Tião se preparava, vestindo uma roupa de Capitão América adaptada, sem as mangas, que atestava sua forma, ou a falta dela.
_ Esta é uma noite especial. Estaremos de frente para o maior artista da história de Passa Tempo: Sebástian, o Trapezista Voador!
_ Tião! Tião! Tião! – Gritava o povo ensandecido.
Tião, como um herói, entrou no palco e subiu as escadas para o trapézio. Sua família. Seus amigos. Estavam todos lá.
_ Aumentem a altura do trapézio! – esbravejou lá de cima.
A multidão foi à loucura.
_ Cortem as redes de segurança! – ordenou já pensando na fama que viria.
Delírio absoluto.
_ Ti-ão! Ti-ão! Ti-ão! Ti-ão! – Exclamavam todos juntos.
Tião tomou fôlego, estufou o peito, retraiu a barriga e pulou rumo ao outro trapézio que já estava em movimento.
Seu pai cruzou os dedos, sua mãe rezava o terço...
Quando foi tentar o movimento mortal, sua mão não alcançou a vara e ele se espatifou no duro tablado.
A gargalhada foi geral. Mancando e apontando o dedo para a platéia, berrou Tião:
_ Quem rir eu mato! Quem rir eu mato!
E saiu com o orgulho mais ferido que as nádegas.
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